O cinema independente norte-americano é famoso por seu estilo ousado e seus temas inesperados. Nesse universo de produções econômicas, em que não faltam grandes idéias para suprir a falta de recursos, surge um novo e promissor nome: Carlos Brooks.
Em seu primeiro filme (Qui Pro Quo, EUA, 2008), o diretor e roteirista estreante prefere um tom sóbrio e despretensioso para compor sua narrativa. A simplicidade do estilo serve como um contraponto perfeito à complexidade do tema escolhido: pessoas aparentemente sadias desejam se tornar deficientes físicos. Somos apresentados a esse submundo de desejos bizarros pela olhar curioso do jornalista de uma pequena rádio pública, Isaac Knotts(Nick Stahl). Isaac está semi-paralisado (em outras palavras, tem controle sobre os movimentos de todo o corpo, exceto das pernas) desde os oito anos, vítima de um acidente de carro que o deixou órfão; e, após ser incumbido de investigar o caso de um homem que havia oferecido 250 mil dólares a um médico para ter sua perna amputada sem motivo algum, entra em contato com uma estranha mulher, Fiona (Vera Farmiga), que promete apresentá-lo a esse mórbido universo em troca de informações sobre como é viver numa cadeira-de-rodas. Como comenta o protagonista, nos deparamos com "um novo tipo de sonho americano", em que a insatisfação com o próprio corpo beira a auto-destruição.
Com competentes atuações de Nick Stahl (Sin City) e Vera Farmiga (Os Infiltrados), somos forçados a tentar compreender as motivações secretas que levam homens e mulheres a rejeitarem os próprios corpos de uma forma tão perversa.
O fime lida com temas caros ao gênero policial: o trauma não-resolvido que deixa marcas físicas e psicológicas profundas no protagonista e que é, também, a chave para a resolução do mistério que instiga o público (ver Amnésia); uma marcada perspectiva em primeira pessoa, que joga com as lacunas da trama para reproduzir o ponto de vista do protagonista (ver Falcão Maltês); e a tão conhecida loira fatal dos romances noir (Raymond Chandler, Dashiell Hammett), que seduz o protagonista até enredá-lo num território de ambigüidades e caos. Porém, mais do que revisitar um gênero famoso, Brooks nos surpreende com uma perturbadora análise do comportamento humano, em que se discute as conseqüências extremas do interminável conflito entre o mundo dos nossos desejos mais secretos e a dura realidade que impõe uma determinada conduta como a norma, reprimindo qualquer desvio.