KUBRICK: UMA INTRODUÇÃO
Os filmes do diretor Stanley Kubrick resistem às mais agudas tentativas de interpretação. Não se trata do famigerado hermetismo de diretores ditos "autorais". Ao contrário, em Kubrick, as imagens incomodam e dificultam a vida dos críticos, porque são explícitas, cruas e, mesmo assim, revelam um cuidadoso planejamento estético, deixando uma marca profunda na memória do público, desarmado pela força irresistível de seus filmes. Quando estudamos sua filmografia, tem-se a impressão de que o diretor falou sobre todos os grandes temas universais e transitou pelos principais gêneros do cinema:
a guerra, seja discutindo a ameaça de um cataclisma nuclear durante a Guerra Fria em Doutor Fantástico, seja apresentando a insanidade que se apossa dos soldados, forçados a sufocar qualquer gesto de compaixão - condição para sobreviver a um treinamento militar desumano -, em Nascido para Matar;
a ficção-científica, analisando as possibilidades da vida em outros planetas, o sempre atual debate sobre os limites éticos da inteligência artificial e os riscos das máquinas se tornarem uma ameaça aos homens em 2001:Uma odisséia no espaço, ou questionando até que ponto os avanços científicos podem alterar a natureza humana e simplificar as eternas questões morais sobre a essência do Mal, no futuro violento e perturbador de Laranja Mecânica;
e para fechar essa lista que ameaça alongar-se e roubar o tema desse artigo, cito o filme que contribuiu para o fortalecer o gênero mais amado e odiado de todos (não, não é o das comédias românticas!): O Iluminado.
O ILUMINADO: UM LABIRINTO (de espelhos deformados)
Como no caso de outros filmes de Kubrick, encontramos em O Iluminado (The Shining, Ing/1980,120 min), baseado no livro homônimo de Stephen King, o tema das obsessões que cegam os homens e os arrastam a praticar atos irracionais. Só que em vez de Humbert (James Mason/Lolita) ou do dr. Strangelove (Peter Sellers/Dr. Fantástico), temos um personagem aparentemente a salvo de uma iminente "crise de nervos": Jack Torrance.
Interpretado pelo lendário Jack Nicholson, ele é um típico pai de família norte-americano, gentil, atencioso, que ama sua esposa Wendy - a histérica e irritante Shelley Duvall - e seu filho com poderes paranormais, Danny - o ator-mirim Danny Lloyd, que supera qualquer Haley Joel Osment com pretensões a ser porta-voz do outro mundo. Jack encontra a tão sonhada possibilidade de escrever um livro, quando lhe é oferecida a vaga de zelador do Hotel Overlook, que ficará fechado durante toda a temporada de inverno.
Logo ao início do filme já temos uma idéia de quão isolada é a localização do hotel: a câmera segue do alto o carro de Jack por uma estrada dominada por uma vertiginosa paisagem de gigantescas montanhas e desfiladeiros. Mas é isto que Jack busca: isolamento e solidão. Mesmo que para isso tenha que ignorar os avisos "nada velados" do gerente do hotel, sr. Ullmann (Barry Nelson), que narra da forma mais descontraída - e essa é uma das grandes cenas do filme - os terríveis fatos que ocorreram no inverno de 1970 nesse mesmo hotel: o antigo zelador, aparentemente vítima da insanidade provocada pelo excesso de "isolamento" provido pelo hotel, assassinou a esposa e as duas filhas, cortando-as em "pedacinhos" com um machado, e se suicidou.
Embora o tema da criança capaz de ver "gente morta" esteja hoje desgastado, um bom motivo para ver ou rever O Iluminado é o modo original como o personagem de Danny é apresentado no filme. Devido, obviamente, ao talento de Kubrick, mas também, à capacidade do escritor Stephen King (merecidamente considerado pela crítica e pelos fãs do gênero "o mestre do terror") de criar personagens infantis complexos e verossímeis (ler, O Cemitério, A Incendiária) e à convincente e espontânea interpretação de Danny Lloyd, temos, pela perspectiva do menino e dos conselhos de seu amigo imaginário Tony (segundo Danny,"o menino que vive dentro de sua boca"), uma privilegiada visão dos fantasmas, que circulam impunemente pelos corredores do hotel, reforçando a sensação de impotência do público. Não há dúvida: Jack conduziu inadvertidamente sua família para uma bizarra repetição do sangrento destino do outro zelador.
O filme parece se dividir em dois planos: a perspectiva do menino Danny e de seu pai Jack. Na primeira tomamos conhecimento do passado trágico que o hotel não consegue ocultar enquanto tenta seduzir o menino e, na última, esboça-se lentamente a ameaça representada pelo esfacelamento mental de Jack, que não consegue resistir à atração que o hotel exerce sobre ele, manipulando seus desejos para afastá-lo de sua família, forever and ever and ever...
Fica óbvio pela sua atuação, desde o primeiro sinal de loucura do personagem, que Jack Nicholson vai tomar conta do filme com a mesma classe de sempre. No início, durante a entrevista de emprego, já se pode perceber uma violência cuidadosamente reprimida e dissimulada por um véu de excessiva polidez. Até é possível imaginar os embates travados entre ele e o diretor durante as filmagens. Mas a parceria produziu cenas memoráveis, incluindo o diálogo mais engraçado do filme, no bar do hotel (ou seria monólogo, já que o interlocutor de Jack é um barman-fantasma, que ele insiste em chamar de Lloyd?).
Como no caso de outros filmes de Kubrick, encontramos em O Iluminado (The Shining, Ing/1980,120 min), baseado no livro homônimo de Stephen King, o tema das obsessões que cegam os homens e os arrastam a praticar atos irracionais. Só que em vez de Humbert (James Mason/Lolita) ou do dr. Strangelove (Peter Sellers/Dr. Fantástico), temos um personagem aparentemente a salvo de uma iminente "crise de nervos": Jack Torrance.
Interpretado pelo lendário Jack Nicholson, ele é um típico pai de família norte-americano, gentil, atencioso, que ama sua esposa Wendy - a histérica e irritante Shelley Duvall - e seu filho com poderes paranormais, Danny - o ator-mirim Danny Lloyd, que supera qualquer Haley Joel Osment com pretensões a ser porta-voz do outro mundo. Jack encontra a tão sonhada possibilidade de escrever um livro, quando lhe é oferecida a vaga de zelador do Hotel Overlook, que ficará fechado durante toda a temporada de inverno.
Logo ao início do filme já temos uma idéia de quão isolada é a localização do hotel: a câmera segue do alto o carro de Jack por uma estrada dominada por uma vertiginosa paisagem de gigantescas montanhas e desfiladeiros. Mas é isto que Jack busca: isolamento e solidão. Mesmo que para isso tenha que ignorar os avisos "nada velados" do gerente do hotel, sr. Ullmann (Barry Nelson), que narra da forma mais descontraída - e essa é uma das grandes cenas do filme - os terríveis fatos que ocorreram no inverno de 1970 nesse mesmo hotel: o antigo zelador, aparentemente vítima da insanidade provocada pelo excesso de "isolamento" provido pelo hotel, assassinou a esposa e as duas filhas, cortando-as em "pedacinhos" com um machado, e se suicidou.
Embora o tema da criança capaz de ver "gente morta" esteja hoje desgastado, um bom motivo para ver ou rever O Iluminado é o modo original como o personagem de Danny é apresentado no filme. Devido, obviamente, ao talento de Kubrick, mas também, à capacidade do escritor Stephen King (merecidamente considerado pela crítica e pelos fãs do gênero "o mestre do terror") de criar personagens infantis complexos e verossímeis (ler, O Cemitério, A Incendiária) e à convincente e espontânea interpretação de Danny Lloyd, temos, pela perspectiva do menino e dos conselhos de seu amigo imaginário Tony (segundo Danny,"o menino que vive dentro de sua boca"), uma privilegiada visão dos fantasmas, que circulam impunemente pelos corredores do hotel, reforçando a sensação de impotência do público. Não há dúvida: Jack conduziu inadvertidamente sua família para uma bizarra repetição do sangrento destino do outro zelador.
O filme parece se dividir em dois planos: a perspectiva do menino Danny e de seu pai Jack. Na primeira tomamos conhecimento do passado trágico que o hotel não consegue ocultar enquanto tenta seduzir o menino e, na última, esboça-se lentamente a ameaça representada pelo esfacelamento mental de Jack, que não consegue resistir à atração que o hotel exerce sobre ele, manipulando seus desejos para afastá-lo de sua família, forever and ever and ever...
Fica óbvio pela sua atuação, desde o primeiro sinal de loucura do personagem, que Jack Nicholson vai tomar conta do filme com a mesma classe de sempre. No início, durante a entrevista de emprego, já se pode perceber uma violência cuidadosamente reprimida e dissimulada por um véu de excessiva polidez. Até é possível imaginar os embates travados entre ele e o diretor durante as filmagens. Mas a parceria produziu cenas memoráveis, incluindo o diálogo mais engraçado do filme, no bar do hotel (ou seria monólogo, já que o interlocutor de Jack é um barman-fantasma, que ele insiste em chamar de Lloyd?).
O ILUMINADO: PALAVRAS E IMAGENS
O filme de Kubrick não é, como se pode prever pelo que foi dito acima, uma simples transposição literal do livro de King. Kubrick tomou decisões que revelam suas idéias e pontos de vista sobre o modo como os filmes devem contribuir para expandir as possibilidades interpretativas, estéticas, experimentais, etc. esboçadas por uma obra literária. Mesmo que os boatos sobre o descontentamento do escritor Stephen King, no que diz respeito às modificações dos destinos de alguns personagens, sejam verdadeiros, é impossível analisar a influência que um fiel cumprimento do plano traçado pelo livro provocaria ao filme - e, quem sabe?, os possíveis danos. Mas é inegável que livro e filme foram elaborados por gênios criativos absolutamente diferentes.
King constrói uma lenta transformação do comportamento de Jack Torrance (que revela uma sutil resistência interior, representada pelos impagáveis momentos de monólogo interior, marca registrada de King ), sob a influência do hotel. Essa técnica provoca um efeito de empatia sobre os juízos que o leitor faz de suas ações, e conduz o inevitável embate entre pai e filho a um nível muito mais dramático. Os leitores reconhecem que ainda existe um pouco da personalidade de Jack naquele psicopata com um machado e, consequentemente, uma ligação afetiva entre ele e o menino.
Kubrick está preocupado com as possibilidades visuais que os atos insanos do ator Jack Nicholson produzirão numa grande audiência, que já está familiarizada com psicopatas mascarados, munidos de serras elétricas ou machados, perseguindo adolescentes, mas que experiencia pela primeira vez a ameaça de um assassino que expõe de forma explícita sua face desvairada para a própria família ( que é também o alvo de sua loucura). Ok, um leitor mais experiente e cauteloso pode rejeitar o pioneirismo de Kubrick quanto aos grandes massacres de família, citando o caso de Mike Myers, da cinessérie Halloween. Mas ainda assim me parece muito mais impactante o olhar insano que Jack dirige à mulher e ao filho pela rachadura na porta do banheiro ("Here is Johnny").
Enfim, fica-se com a impressão quando confrontamos livro e filme, que as duas únicas semelhanças entre cineasta e escritor são as iniciais de seus nomes (S.K.) e o desejo de provocar uma experiência única e perturbadora em seus respectivos públicos.
O ILUMINADO: UM CLÁSSICO DO TERROR
Mesmo que tenha sido sua única experiência com o gênero dos filmes de horror, Kubrick soube construir uma grande obra cinematográfica, com todos os elementos exigidos pela forma. Ampliando as possibilidades de um estilo narrativo que remete aos melhores trabalhos de Hitchcock e Polanski , alia uma trilha-sonora visceral a movimentos originais de câmera; e consegue transmitir aos espectadores, com perfeição e realismo, a terrível experiência que a família Torrance está prestes a enfrentar. Sem abrir mão, é claro, de litros e litros de sangue - a cena do elevador é inesquecível! - e daquela conhecida presença sobrenatural que insiste em perturbar as certezas racionais dos homens.
Mesmo que tenha sido sua única experiência com o gênero dos filmes de horror, Kubrick soube construir uma grande obra cinematográfica, com todos os elementos exigidos pela forma. Ampliando as possibilidades de um estilo narrativo que remete aos melhores trabalhos de Hitchcock e Polanski , alia uma trilha-sonora visceral a movimentos originais de câmera; e consegue transmitir aos espectadores, com perfeição e realismo, a terrível experiência que a família Torrance está prestes a enfrentar. Sem abrir mão, é claro, de litros e litros de sangue - a cena do elevador é inesquecível! - e daquela conhecida presença sobrenatural que insiste em perturbar as certezas racionais dos homens.