quinta-feira, 19 de junho de 2008

Fim dos Tempos (The Happening, EUA, 2008)

O novo filme do diretor M. Night Shyamalan é definitivamente uma decepção para quem esperava um novo Sexto Sentido. Retomando o tom apocalíptico de Sinais, o diretor pretende em Fim dos Tempos narrar a história de um acontecimento (The Happening, no título original) terrivelmente inexplicável: sem aviso algum, pessoas apresentam um comportamento suicida simultaneamente em diversas cidades dos EUA.
Jogando com a obsessão americana pela ameça sempre iminente do terrorismo, Shyamalan constrói uma narrativa simples - a partir do ponto de vista de um casal em crise - acrescentando ao plot o seu inconfundível tom sobrenatural Até aí nenhuma novidade, mas falta ao diretor a "sorte" de seus primeiros filmes: um ótimo elenco, uma direção segura e um grande roteiro. Fim dos Tempos não tem nada disso. É extremamente embaraçoso assistir as performances de Mark Whalberg (como Elliot Moore) e Zooey Deschannel (como Alma Moore) ( - perdida numa representação forçada. Nem o mesmo o humor funciona dessa vez. O único ator realmente empenhado é John Leguizamo, mas infelizmente sua participação é breve e sem grandes oportunidades de salvar o filme. Shyamalan não consegue resistir ao auto-plágio, e somos forçados a sentir aquele deja vu que soa a crise de criatividade tanto nas técnicas de assustar o público quanto a grande "surpresa final" que não tem nada de surpreendente. Em alguns momentos o filme é tão maçante que os diálogos parecem só ter sido escritos para preencher o tempo entre um e outro ataque coletivo de suicídio.
Parece que Shyamalan está vendendo suas idéias num gênero errado. A partir de Sexto Sentido, que lhe rendeu o epíteto de novo Hitchcock, pela engenhosidade semelhante com que conseguia lidar com o suspense; o diretor sempre demonstrou um grande interesse pela análise psicológica dos personagens, colocando as tramas sobrenaturais em segundo plano. Pode se observar em seus filmes não o ritmo de um thriller - mesmo que seus produtores os vendessem desse modo- ,mas a lenta construção de alegorias (com temática fantástica), manifestações concretas das angústias psicológicas dos personagens principais: no já citado Sexto Sentido, apresenta, através de uma história de paranormalidade e fantasmas, o relacionamento problemático entre mãe e filho; em Corpo Fechado, é a vez de um pai de família infeliz confrontar seu próprio destino - ser uma espécie de super-herói no mundo real-; em Sinais temos um conto de ficção-científica em que, durante uma invasão alienígena, um pastor é obrigado a redescobrir a própria fé; n' A Vila o tema do medo ganha proporções fantásticas numa fábula moderna sobre as conseqüências da exagerada obsessão pela segurança; A Dama na Água - primeira escorregada do diretor- foge um pouco das características de seus outros filmes e embarca num universo de fantasia, com referências diretas a forma dos contos populares de fadas e monstros. Shyamalan fez dessas temáticas sobrenaturais uma "isca" para atrair um público acostumado aos velhos esquemas dos blockbusters, forçando-o a consumir histórias em que os dramas humanos prevalecem sobre os efeitos especiais e o corre-corre da narrativa.
Essa mágica do diretor funcionou em seus primeiros filmes, mas o público e a crítica já começaram a perceber que as fórmulas dessa ficção sobrenatural estão se esgotando.