It's only after we've lost everything
That we're free to do anything
Tyler Durden
Baseado no livro homônimo de Chuck Palahniuk, Clube da Luta (Fight Club, 1999, EUA) é uma ousada jornada de auto-conhecimento, como nenhum livro de auto-ajuda jamais tentou ser. Tomando como ponto de partida as agruras de Jack (Edward Norton) para vencer uma insônia; o filme apresenta, num tom amargamente cômico, os piores ângulos da vida moderna.
No início, através do ponto de vista de Jack, somos apresentados aos dois personagens que, segundo ele, são responsáveis pelo apocalíptico clímax do filme: Marla Synger (Helena Bonham-Carter) e Tyler Durden (Brad Pitt). Embarcamos com o personagem numa revisão e tentativa de compreensão dos fatos que desencadearam o tal final bizarro. Tudo começa com uma insistente insônia, que já dura seis meses... e logo depois vem o grupo de ajuda para homens com câncer nos testículos....hein? Como assim?...melhor explicar: sem esperanças de encontrar um remédio capaz de resolver seu problema, Jack começa a freqüentar esse grupo, apenas para passar o tempo, mas o que antes parecia uma mórbida distração se torna um catalisador para a transformação de todo o seu estilode vida, e não demora muito para Jack dormir “como um bebê”. Os grupos de ajuda se tornam um vício e ele começa a participar de reuniões para outros tipos de doenças e vícios, adotando uma espécie de disfarce para seu papel de turista. Porém esse alívio é passageiro. Surge a personagem Marla Synger, que ostenta mais arriscadamente a mentira de sua atuação nesses ambientes de sofrimento e intimidade. Assim, Jack é forçado a abandonar essa doce terapia, pois só o temor de ser desmascarado já o impede de dormir novamente. Insone e desesperado, Jack conhece Tyler Durden, um vendedor de sabonetes om estranhas idéias, numa viagem de avião... A partir desse ponto da película, qualquer revelação seria um grande estraga-prazeres para quem ainda não viu o filme.
O filme é um grande desfile de personagens fracassados, mas ao contrário da grande maioria dos filmes norte-americanos que tentam lidar com esse tipo de caracterização, Clube da Luta não cai na armadilha de apresentá-los apenas como distantes símbolos do excêntrico, mas obriga o público a ver de perto o quanto esses “personagens malditos” são muito menos estranhos do que queremos admitir.
O tema da violência explícita no cinema sempre provocou reações extremas de rejeição do público e, muitas vezes, da crítica. A legitimação só parece ser motivada por um tipo de representação amenizada por belas coreografias de artes marciais e por uma edição estilizada e frenética, típica dos videoclipes, que transforma a violência em entretenimento para toda a família.Mas o que não se leva em conta nestes infindáveis debates é a falsa premissa que a sustenta: a violência explícita é apresentada sempre como um elemento não-motivado numa obra, apenas como forma de exploração comercial. Esse fato, com certeza, não é o caso do Clube da Luta, que concebe a violência como alternativa a uma vida frustrada, cheia de submissão cega e inconsciente de regras absurdas, que transformam homens em criaturinhas apáticas e amedrontadas. Como a etiqueta social, que reflete esse modo de ver os homens, manda que, sob nenhuma ciircunstância, você deve agredir outra pessoa, sob pena de transgredir as normas de boa convivência, por que não usar a violência como parte do processo de destruição de qualquer resíduo dessa cultura em nossas mentes. Leitor, você pode não concordar com essa idéia defendida pelo filme, mas não pode negar que a violência está presente ali apenas para sustentar essa tese. A violência é mais uma etapa do desaprendizado de Jack rumo ao “fim do poço”. Espécie de viagem dantesca ao contrário, pois parte do parte da ilusão de segurança e ordem dos Céus até alcançar o último círculo do Inferno, Jack deve, ao fim, rejeitar o Deus que lhe foi imposto como símbolo de todas as regras da vida para se libertar. Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate...
O roteiro de Jim Uhls e a direção de David Fincher (Seven, Quarto do Pânico, Zodíaco) transpõem com bastante fidelidade o universo de Chuck Palahniuk, repleto de anti-heróis dolorosamente humanos, sempre engajados num tipo de luta inglória contra as “velhas idéias” que insistem em consumir nossos pensamentos e inibir nossa ação – aqueles fantasmas do passado que assombram nossas vidas, à espera de um terapêutico exorcismo.
A proposta do filme, que provavelmente resultou numa agressiva rejeição do público, é perturbadora em sua simplicidade: o preço do “conhece-te a ti mesmo” - como diriam os oráculos gregos- é a perda de qualquer esperança, o puro esquecimento de qualquer ilusão sobre como os seres humanos são especiais, o abandono das ilusões de segurança e ordem que organizam nossa percepção sobre a realidade, e ao final, o inevitável confronto com a terrível verdade que tentamos esquecer: first you have to know, not fear, that some day you're gonna die. Assim como a proposta de qualquer livro de auto-ajuda do tipo mude-sua-vida-em-sete-dias, Clube da Luta dá algumas pistas sobre o que está errado em nossa época, sobre nossos estilos de vida; porém, ao contrário dessa literatura consoladora, a imagem dos seres humanos que o filme apresenta não é nada lisonjeira. Clube da Luta não faz concessões, dá duros golpes em nossas crenças e certezas: não faltam ataques às idéias de Deus e de Civilização, ambos produtos de uma sociedade supostamente justa que condena o comportamento violento mas valoriza a competição exacerbada – um tipo de conduta violenta lícita, legitimada pela nossa cultura.