quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Half Nelson

A representação da rotina de um viciado em drogas está bem próxima da minha visão particular de como seria o Inferno: ser condenado a repetir o mesmo ato por toda a eternidade. Nos dois casos, o esforço do condenado tem uma mesma motivação, encher o vazio (que todos nós já sentimos alguma vez ou iremos sentir); e, em ambas as situações, cada ato repetido torna o vazio maior, como as almas castigadas nos versos do Inferno de Dante. O curioso título Half Nelson (2006, EUA) refere-se literalmente a um golpe de luta livre em que se imobiliza um dos braços e o pescoço do oponente, e é também uma inteligente metáfora para expressar a sensação de imobilidade vivenciada pelo protagonista do filme, viciado em drogas.
Dann Dunne (vivido pelo talentoso Ryan Gosling) é o professor de História de uma escola pública no Brooklyn e é, também, o treinador do time feminino de basquete da escola. Um dos grandes temas do filme é como o vício afeta seu trabalho. Por mais que Dunne tente esconder, seus gestos e palavras revelam o desespero que o devora internamente. Em suas aulas, esforça-se em expor a seus alunos o verdadeiro significado da matéria que está ensinando: mudança. Um processo que pode ser experimentado nas coisas mais simples do cotidiano, e que é sempre o resultado do conflito de duas forças opostas. Ansioso por uma mudança em sua própria vida, Dunne apega-se veementemente a essa idéia. Mas também tem consciência de que o vício é uma força absoluta em sua vida e que não vê nenhuma possibilidade de desvencilhar-se dele.
Em outro ponto da narrativa, conhecemos Drey (Shareeka Epps), umas das alunas de Dunne, que tem muito em comum com seu professor: vive uma vida solitária e começa a perceber-se presa a uma armadilha que ameaça fazê-la repetir o destino de seu irmão mais velho, preso por tráfico de drogas. Não há dúvidas de que o eixo que impele as ações dos personagens são as drogas.Depois de acidentalmente descobrir o vício de Dunne, Drey começa a aproximar-se dele, secretamente buscando também forças para resistir aos convites para trabalhar com Frank (, um traficante de drogas. A fonte da força que Dunne busca para mudar pode estar mais próxima do que ele imagina.
Quase totalmente filmado com a câmera na mão, Half Nelson é dirigido cuidadosamente por Ryan Fleck ao apresentar a rotina de um viciado, nada espalhafatoso ou sensacionalista ao apresentá-lo usando ou sob o efeito da droga; não há pesadas mensagens morais, tudo parece acontecer num tom desesperadamente trivial; e numa cena exemplar desse tom, Dann vai tirar satisfações com Frank (Anthony Mackie) para afastá-lo de Drey, ele não tem ilusões sobre a sua condição e a impossibilidade de ser um modelo alternativo para Drey e não consegue assumir um tom convincente o bastante para convencer Frank a deixar a menina em paz.
O cinema tem produzido poderosos estudos que aprofundam a discussão sobre o vício das drogas, como Réquiem para um sonho, Sob o efeito da água e Candy; Half Nelson acrescenta um olhar mais intimista ao tema e proporciona uma vívida e sincera experiência ao público.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Qui Pro Quo

O cinema independente norte-americano é famoso por seu estilo ousado e seus temas inesperados. Nesse universo de produções econômicas, em que não faltam grandes idéias para suprir a falta de recursos, surge um novo e promissor nome: Carlos Brooks.
Em seu primeiro filme (Qui Pro Quo, EUA, 2008), o diretor e roteirista estreante prefere um tom sóbrio e despretensioso para compor sua narrativa. A simplicidade do estilo serve como um contraponto perfeito à complexidade do tema escolhido: pessoas aparentemente sadias desejam se tornar deficientes físicos. Somos apresentados a esse submundo de desejos bizarros pela olhar curioso do jornalista de uma pequena rádio pública, Isaac Knotts(Nick Stahl). Isaac está semi-paralisado (em outras palavras, tem controle sobre os movimentos de todo o corpo, exceto das pernas) desde os oito anos, vítima de um acidente de carro que o deixou órfão; e, após ser incumbido de investigar o caso de um homem que havia oferecido 250 mil dólares a um médico para ter sua perna amputada sem motivo algum, entra em contato com uma estranha mulher, Fiona (Vera Farmiga), que promete apresentá-lo a esse mórbido universo em troca de informações sobre como é viver numa cadeira-de-rodas. Como comenta o protagonista, nos deparamos com "um novo tipo de sonho americano", em que a insatisfação com o próprio corpo beira a auto-destruição.
Com competentes atuações de Nick Stahl (Sin City) e Vera Farmiga (Os Infiltrados), somos forçados a tentar compreender as motivações secretas que levam homens e mulheres a rejeitarem os próprios corpos de uma forma tão perversa.
O fime lida com temas caros ao gênero policial: o trauma não-resolvido que deixa marcas físicas e psicológicas profundas no protagonista e que é, também, a chave para a resolução do mistério que instiga o público (ver Amnésia); uma marcada perspectiva em primeira pessoa, que joga com as lacunas da trama para reproduzir o ponto de vista do protagonista (ver Falcão Maltês); e a tão conhecida loira fatal dos romances noir (Raymond Chandler, Dashiell Hammett), que seduz o protagonista até enredá-lo num território de ambigüidades e caos. Porém, mais do que revisitar um gênero famoso, Brooks nos surpreende com uma perturbadora análise do comportamento humano, em que se discute as conseqüências extremas do interminável conflito entre o mundo dos nossos desejos mais secretos e a dura realidade que impõe uma determinada conduta como a norma, reprimindo qualquer desvio.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Fim dos Tempos (The Happening, EUA, 2008)

O novo filme do diretor M. Night Shyamalan é definitivamente uma decepção para quem esperava um novo Sexto Sentido. Retomando o tom apocalíptico de Sinais, o diretor pretende em Fim dos Tempos narrar a história de um acontecimento (The Happening, no título original) terrivelmente inexplicável: sem aviso algum, pessoas apresentam um comportamento suicida simultaneamente em diversas cidades dos EUA.
Jogando com a obsessão americana pela ameça sempre iminente do terrorismo, Shyamalan constrói uma narrativa simples - a partir do ponto de vista de um casal em crise - acrescentando ao plot o seu inconfundível tom sobrenatural Até aí nenhuma novidade, mas falta ao diretor a "sorte" de seus primeiros filmes: um ótimo elenco, uma direção segura e um grande roteiro. Fim dos Tempos não tem nada disso. É extremamente embaraçoso assistir as performances de Mark Whalberg (como Elliot Moore) e Zooey Deschannel (como Alma Moore) ( - perdida numa representação forçada. Nem o mesmo o humor funciona dessa vez. O único ator realmente empenhado é John Leguizamo, mas infelizmente sua participação é breve e sem grandes oportunidades de salvar o filme. Shyamalan não consegue resistir ao auto-plágio, e somos forçados a sentir aquele deja vu que soa a crise de criatividade tanto nas técnicas de assustar o público quanto a grande "surpresa final" que não tem nada de surpreendente. Em alguns momentos o filme é tão maçante que os diálogos parecem só ter sido escritos para preencher o tempo entre um e outro ataque coletivo de suicídio.
Parece que Shyamalan está vendendo suas idéias num gênero errado. A partir de Sexto Sentido, que lhe rendeu o epíteto de novo Hitchcock, pela engenhosidade semelhante com que conseguia lidar com o suspense; o diretor sempre demonstrou um grande interesse pela análise psicológica dos personagens, colocando as tramas sobrenaturais em segundo plano. Pode se observar em seus filmes não o ritmo de um thriller - mesmo que seus produtores os vendessem desse modo- ,mas a lenta construção de alegorias (com temática fantástica), manifestações concretas das angústias psicológicas dos personagens principais: no já citado Sexto Sentido, apresenta, através de uma história de paranormalidade e fantasmas, o relacionamento problemático entre mãe e filho; em Corpo Fechado, é a vez de um pai de família infeliz confrontar seu próprio destino - ser uma espécie de super-herói no mundo real-; em Sinais temos um conto de ficção-científica em que, durante uma invasão alienígena, um pastor é obrigado a redescobrir a própria fé; n' A Vila o tema do medo ganha proporções fantásticas numa fábula moderna sobre as conseqüências da exagerada obsessão pela segurança; A Dama na Água - primeira escorregada do diretor- foge um pouco das características de seus outros filmes e embarca num universo de fantasia, com referências diretas a forma dos contos populares de fadas e monstros. Shyamalan fez dessas temáticas sobrenaturais uma "isca" para atrair um público acostumado aos velhos esquemas dos blockbusters, forçando-o a consumir histórias em que os dramas humanos prevalecem sobre os efeitos especiais e o corre-corre da narrativa.
Essa mágica do diretor funcionou em seus primeiros filmes, mas o público e a crítica já começaram a perceber que as fórmulas dessa ficção sobrenatural estão se esgotando.

sábado, 14 de junho de 2008

O ILUMINADO


KUBRICK: UMA INTRODUÇÃO
Os filmes do diretor Stanley Kubrick resistem às mais agudas tentativas de interpretação. Não se trata do famigerado hermetismo de diretores ditos "autorais". Ao contrário, em Kubrick, as imagens incomodam e dificultam a vida dos críticos, porque são explícitas, cruas e, mesmo assim, revelam um cuidadoso planejamento estético, deixando uma marca profunda na memória do público, desarmado pela força irresistível de seus filmes. Quando estudamos sua filmografia, tem-se a impressão de que o diretor falou sobre todos os grandes temas universais e transitou pelos principais gêneros do cinema:
a guerra, seja discutindo a ameaça de um cataclisma nuclear durante a Guerra Fria em Doutor Fantástico, seja apresentando a insanidade que se apossa dos soldados, forçados a sufocar qualquer gesto de compaixão - condição para sobreviver a um treinamento militar desumano -, em Nascido para Matar;
a ficção-científica, analisando as possibilidades da vida em outros planetas, o sempre atual debate sobre os limites éticos da inteligência artificial e os riscos das máquinas se tornarem uma ameaça aos homens em 2001:Uma odisséia no espaço, ou questionando até que ponto os avanços científicos podem alterar a natureza humana e simplificar as eternas questões morais sobre a essência do Mal, no futuro violento e perturbador de Laranja Mecânica;
e para fechar essa lista que ameaça alongar-se e roubar o tema desse artigo, cito o filme que contribuiu para o fortalecer o gênero mais amado e odiado de todos (não, não é o das comédias românticas!): O Iluminado.
O ILUMINADO: UM LABIRINTO (de espelhos deformados)
Como no caso de outros filmes de Kubrick, encontramos em O Iluminado (The Shining, Ing/1980,120 min), baseado no livro homônimo de Stephen King, o tema das obsessões que cegam os homens e os arrastam a praticar atos irracionais. Só que em vez de Humbert (James Mason/Lolita) ou do dr. Strangelove (Peter Sellers/Dr. Fantástico), temos um personagem aparentemente a salvo de uma iminente "crise de nervos": Jack Torrance.
Interpretado pelo lendário Jack Nicholson, ele é um típico pai de família norte-americano, gentil, atencioso, que ama sua esposa Wendy - a histérica e irritante Shelley Duvall - e seu filho com poderes paranormais, Danny - o ator-mirim Danny Lloyd, que supera qualquer Haley Joel Osment com pretensões a ser porta-voz do outro mundo. Jack encontra a tão sonhada possibilidade de escrever um livro, quando lhe é oferecida a vaga de zelador do Hotel Overlook, que ficará fechado durante toda a temporada de inverno.
Logo ao início do filme já temos uma idéia de quão isolada é a localização do hotel: a câmera segue do alto o carro de Jack por uma estrada dominada por uma vertiginosa paisagem de gigantescas montanhas e desfiladeiros. Mas é isto que Jack busca: isolamento e solidão. Mesmo que para isso tenha que ignorar os avisos "nada velados" do gerente do hotel, sr. Ullmann (Barry Nelson), que narra da forma mais descontraída - e essa é uma das grandes cenas do filme - os terríveis fatos que ocorreram no inverno de 1970 nesse mesmo hotel: o antigo zelador, aparentemente vítima da insanidade provocada pelo excesso de "isolamento" provido pelo hotel, assassinou a esposa e as duas filhas, cortando-as em "pedacinhos" com um machado, e se suicidou.
Embora o tema da criança capaz de ver "gente morta" esteja hoje desgastado, um bom motivo para ver ou rever O Iluminado é o modo original como o personagem de Danny é apresentado no filme. Devido, obviamente, ao talento de Kubrick, mas também, à capacidade do escritor Stephen King (merecidamente considerado pela crítica e pelos fãs do gênero "o mestre do terror") de criar personagens infantis complexos e verossímeis (ler, O Cemitério, A Incendiária) e à convincente e espontânea interpretação de Danny Lloyd, temos, pela perspectiva do menino e dos conselhos de seu amigo imaginário Tony (segundo Danny,"o menino que vive dentro de sua boca"), uma privilegiada visão dos fantasmas, que circulam impunemente pelos corredores do hotel, reforçando a sensação de impotência do público. Não há dúvida: Jack conduziu inadvertidamente sua família para uma bizarra repetição do sangrento destino do outro zelador.
O filme parece se dividir em dois planos: a perspectiva do menino Danny e de seu pai Jack. Na primeira tomamos conhecimento do passado trágico que o hotel não consegue ocultar enquanto tenta seduzir o menino e, na última, esboça-se lentamente a ameaça representada pelo esfacelamento mental de Jack, que não consegue resistir à atração que o hotel exerce sobre ele, manipulando seus desejos para afastá-lo de sua família, forever and ever and ever...
Fica óbvio pela sua atuação, desde o primeiro sinal de loucura do personagem, que Jack Nicholson vai tomar conta do filme com a mesma classe de sempre. No início, durante a entrevista de emprego, já se pode perceber uma violência cuidadosamente reprimida e dissimulada por um véu de excessiva polidez. Até é possível imaginar os embates travados entre ele e o diretor durante as filmagens. Mas a parceria produziu cenas memoráveis, incluindo o diálogo mais engraçado do filme, no bar do hotel (ou seria monólogo, já que o interlocutor de Jack é um barman-fantasma, que ele insiste em chamar de Lloyd?).

O ILUMINADO: PALAVRAS E IMAGENS
O filme de Kubrick não é, como se pode prever pelo que foi dito acima, uma simples transposição literal do livro de King. Kubrick tomou decisões que revelam suas idéias e pontos de vista sobre o modo como os filmes devem contribuir para expandir as possibilidades interpretativas, estéticas, experimentais, etc. esboçadas por uma obra literária. Mesmo que os boatos sobre o descontentamento do escritor Stephen King, no que diz respeito às modificações dos destinos de alguns personagens, sejam verdadeiros, é impossível analisar a influência que um fiel cumprimento do plano traçado pelo livro provocaria ao filme - e, quem sabe?, os possíveis danos. Mas é inegável que livro e filme foram elaborados por gênios criativos absolutamente diferentes.
King constrói uma lenta transformação do comportamento de Jack Torrance (que revela uma sutil resistência interior, representada pelos impagáveis momentos de monólogo interior, marca registrada de King ), sob a influência do hotel. Essa técnica provoca um efeito de empatia sobre os juízos que o leitor faz de suas ações, e conduz o inevitável embate entre pai e filho a um nível muito mais dramático. Os leitores reconhecem que ainda existe um pouco da personalidade de Jack naquele psicopata com um machado e, consequentemente, uma ligação afetiva entre ele e o menino.
Kubrick está preocupado com as possibilidades visuais que os atos insanos do ator Jack Nicholson produzirão numa grande audiência, que já está familiarizada com psicopatas mascarados, munidos de serras elétricas ou machados, perseguindo adolescentes, mas que experiencia pela primeira vez a ameaça de um assassino que expõe de forma explícita sua face desvairada para a própria família ( que é também o alvo de sua loucura). Ok, um leitor mais experiente e cauteloso pode rejeitar o pioneirismo de Kubrick quanto aos grandes massacres de família, citando o caso de Mike Myers, da cinessérie Halloween. Mas ainda assim me parece muito mais impactante o olhar insano que Jack dirige à mulher e ao filho pela rachadura na porta do banheiro ("Here is Johnny").
Enfim, fica-se com a impressão quando confrontamos livro e filme, que as duas únicas semelhanças entre cineasta e escritor são as iniciais de seus nomes (S.K.) e o desejo de provocar uma experiência única e perturbadora em seus respectivos públicos.
O ILUMINADO: UM CLÁSSICO DO TERROR
Mesmo que tenha sido sua única experiência com o gênero dos filmes de horror, Kubrick soube construir uma grande obra cinematográfica, com todos os elementos exigidos pela forma. Ampliando as possibilidades de um estilo narrativo que remete aos melhores trabalhos de Hitchcock e Polanski , alia uma trilha-sonora visceral a movimentos originais de câmera; e consegue transmitir aos espectadores, com perfeição e realismo, a terrível experiência que a família Torrance está prestes a enfrentar. Sem abrir mão, é claro, de litros e litros de sangue - a cena do elevador é inesquecível! - e daquela conhecida presença sobrenatural que insiste em perturbar as certezas racionais dos homens.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Clube da Luta: um aprendizado às avessas (ou a vez de Mr. Hyde)

It's only after we've lost everything
That we're free to do anything
Tyler Durden




Baseado no livro homônimo de Chuck Palahniuk, Clube da Luta (Fight Club, 1999, EUA) é uma ousada jornada de auto-conhecimento, como nenhum livro de auto-ajuda jamais tentou ser. Tomando como ponto de partida as agruras de Jack (Edward Norton) para vencer uma insônia; o filme apresenta, num tom amargamente cômico, os piores ângulos da vida moderna.

No início, através do ponto de vista de Jack, somos apresentados aos dois personagens que, segundo ele, são responsáveis pelo apocalíptico clímax do filme: Marla Synger (Helena Bonham-Carter) e Tyler Durden (Brad Pitt). Embarcamos com o personagem numa revisão e tentativa de compreensão dos fatos que desencadearam o tal final bizarro. Tudo começa com uma insistente insônia, que já dura seis meses... e logo depois vem o grupo de ajuda para homens com câncer nos testículos....hein? Como assim?...melhor explicar: sem esperanças de encontrar um remédio capaz de resolver seu problema, Jack começa a freqüentar esse grupo, apenas para passar o tempo, mas o que antes parecia uma mórbida distração se torna um catalisador para a transformação de todo o seu estilode vida, e não demora muito para Jack dormir “como um bebê”. Os grupos de ajuda se tornam um vício e ele começa a participar de reuniões para outros tipos de doenças e vícios, adotando uma espécie de disfarce para seu papel de turista. Porém esse alívio é passageiro. Surge a personagem Marla Synger, que ostenta mais arriscadamente a mentira de sua atuação nesses ambientes de sofrimento e intimidade. Assim, Jack é forçado a abandonar essa doce terapia, pois só o temor de ser desmascarado já o impede de dormir novamente. Insone e desesperado, Jack conhece Tyler Durden, um vendedor de sabonetes om estranhas idéias, numa viagem de avião... A partir desse ponto da película, qualquer revelação seria um grande estraga-prazeres para quem ainda não viu o filme.

O filme é um grande desfile de personagens fracassados, mas ao contrário da grande maioria dos filmes norte-americanos que tentam lidar com esse tipo de caracterização, Clube da Luta não cai na armadilha de apresentá-los apenas como distantes símbolos do excêntrico, mas obriga o público a ver de perto o quanto esses “personagens malditos” são muito menos estranhos do que queremos admitir.

O tema da violência explícita no cinema sempre provocou reações extremas de rejeição do público e, muitas vezes, da crítica. A legitimação só parece ser motivada por um tipo de representação amenizada por belas coreografias de artes marciais e por uma edição estilizada e frenética, típica dos videoclipes, que transforma a violência em entretenimento para toda a família.Mas o que não se leva em conta nestes infindáveis debates é a falsa premissa que a sustenta: a violência explícita é apresentada sempre como um elemento não-motivado numa obra, apenas como forma de exploração comercial. Esse fato, com certeza, não é o caso do Clube da Luta, que concebe a violência como alternativa a uma vida frustrada, cheia de submissão cega e inconsciente de regras absurdas, que transformam homens em criaturinhas apáticas e amedrontadas. Como a etiqueta social, que reflete esse modo de ver os homens, manda que, sob nenhuma ciircunstância, você deve agredir outra pessoa, sob pena de transgredir as normas de boa convivência, por que não usar a violência como parte do processo de destruição de qualquer resíduo dessa cultura em nossas mentes. Leitor, você pode não concordar com essa idéia defendida pelo filme, mas não pode negar que a violência está presente ali apenas para sustentar essa tese. A violência é mais uma etapa do desaprendizado de Jack rumo ao “fim do poço”. Espécie de viagem dantesca ao contrário, pois parte do parte da ilusão de segurança e ordem dos Céus até alcançar o último círculo do Inferno, Jack deve, ao fim, rejeitar o Deus que lhe foi imposto como símbolo de todas as regras da vida para se libertar. Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate...

O roteiro de Jim Uhls e a direção de David Fincher (Seven, Quarto do Pânico, Zodíaco) transpõem com bastante fidelidade o universo de Chuck Palahniuk, repleto de anti-heróis dolorosamente humanos, sempre engajados num tipo de luta inglória contra as “velhas idéias” que insistem em consumir nossos pensamentos e inibir nossa ação – aqueles fantasmas do passado que assombram nossas vidas, à espera de um terapêutico exorcismo.

A proposta do filme, que provavelmente resultou numa agressiva rejeição do público, é perturbadora em sua simplicidade: o preço do “conhece-te a ti mesmo” - como diriam os oráculos gregos- é a perda de qualquer esperança, o puro esquecimento de qualquer ilusão sobre como os seres humanos são especiais, o abandono das ilusões de segurança e ordem que organizam nossa percepção sobre a realidade, e ao final, o inevitável confronto com a terrível verdade que tentamos esquecer: first you have to know, not fear, that some day you're gonna die. Assim como a proposta de qualquer livro de auto-ajuda do tipo mude-sua-vida-em-sete-dias, Clube da Luta dá algumas pistas sobre o que está errado em nossa época, sobre nossos estilos de vida; porém, ao contrário dessa literatura consoladora, a imagem dos seres humanos que o filme apresenta não é nada lisonjeira. Clube da Luta não faz concessões, dá duros golpes em nossas crenças e certezas: não faltam ataques às idéias de Deus e de Civilização, ambos produtos de uma sociedade supostamente justa que condena o comportamento violento mas valoriza a competição exacerbada – um tipo de conduta violenta lícita, legitimada pela nossa cultura.